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As Veias Abertas da América Latina - Eduardo Galeano - Notas

Trechos e anotações do livro As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. Trabalhei com a edição da LPM, de 455 páginas, em formato de livro eletrônico.

Primeira parte - A pobreza do homem como resultado da riqueza da terra

As fontes subterrâneas do poder

p. 257 - "Em 1952, o acordo militar assinado com os Estados Unidos proibiu o Brasil de vender matérias-primas de valor estratégico – como o ferro – para os países socialistas. Esta foi uma das causas da trágica queda do presidente Getúlio Vargas, que desobedeceu essa imposição e, em 1953 e 1954, vendeu ferro para a Polônia e a Tchecoslováquia a preços mais altos do que aquele que era pago pelos Estados Unidos."

Segunda parte - O desenvolvimento é uma viagem com mais náufragos do que navegantes

A estrutura contemporânea da espoliação

p. 339 - "Quando Lênin escreveu, na primavera de 1916, seu livro sobre o imperialismo, o capital norte-americano abarcava menos de um quinto do total dos investimentos privados diretos, de origem estrangeira, na América Latina. Em 1970, abarca cerca de três quartas partes. O imperialismo que Lênin conheceu – a rapacidade dos centros industriais na busca de mercados mundiais para a exportação de suas mercadorias; a febre de apossar-se de todas as fontes possíveis de matérias-primas; o saque do ferro, do carvão, do petróleo; as ferrovias articulando o domínio das áreas submetidas; os empréstimos vorazes dos monopólios financeiros; as expedições militares e as guerras de conquista – era um imperialismo que regava com sal os lugares em que uma colônia ou semicolônia tivesse ousado levantar fábrica própria. Para os países pobres, a industrialização, privilégio das metrópoles, resultava incompatível com o sistema de domínio imposto pelos países ricos. A partir da Segunda Guerra Mundial, consolida-se na América Latina um recuo dos interesses europeus em benefício do arrasador avanço dos investimentos norte-americanos."

p. 396 - "Essa eficiência na coordenação das operações em escala mundial, completamente à margem do 'livre jogo das forças do mercado', não se traduz, claro está, em preços mais baixos para os consumidores nacionais, mas em lucros maiores para os acionistas estrangeiros. É eloquente o caso dos automóveis. Dentro dos países latino-americanos, as empresas dispõem de mão de obra abundante e muito, mas muito barata, além de uma política oficial em todos os sentidos favorável à expansão dos investimentos: doação de terrenos, tarifas elétricas privilegiadas, redescontos do Estado para financiar as vendas a prazo, dinheiro facilmente acessível e, como se não bastasse, em alguns países o auxílio chegou ao extremo de isentar as empresas do pagamento dos impostos de renda ou das vendas. De outra parte, o controle do mercado é de antemão facilitado pelo prestígio mágico que, aos olhos da classe média, gozam as marcas e os modelos promovidos por gigantescas campanhas mundiais de publicidade. No entanto, todos esses fatores não impedem, e sim determinam que os carros produzidos na região sejam mais caros do que no país de origem das mesmas empresas. As dimensões dos mercados latino-americanos são muito menores, é certo, mas não é menos certo que nestas terras a ambição de lucros das corporações se excita como em nenhum outro lugar. Um Ford Falcon construído no Chile custa três vezes mais do que nos Estados Unidos[21]; um Valiant ou um Fiat fabricados na Argentina têm preços de vendas que duplicam com sobras os preços dos Estados Unidos ou da Itália[22]; outro tanto ocorre entre o Volkswagen do Brasil em relação ao que custa na Alemanha[23]."

p. 400 - "Em 1970, há menos de 1.000 computadores na América Latina e 50 mil nos Estados Unidos. É no norte, por certo, que são desenhados os modelos eletrônicos e são criadas as linguagens de programação que a América Latina importa. O subdesenvolvimento latino-americano não é uma etapa no caminho do desenvolvimento, ainda que se 'modernizem' suas deformidades (...)".

p. 401 - "Os símbolos da prosperidade são os símbolos da dependência. Recebe-se a tecnologia moderna como no século passado se receberam as ferrovias, a serviço dos interesses estrangeiros que modelam e remodelam o estatuto colonial destes países"

p. 402 - "Ao controlar as alavancas da tecnologia, as grandes corporações multinacionais manejam também, por razões óbvias, outros aspectos cruciais da economia latino-americana. As casas matrizes, por certo, nunca proporcionam às suas filiais as inovações mais recentes, tampouco estimulam uma independência que não lhes seria conveniente. Uma pesquisa do Business International, realizada por encomenda do BID, chegou à conclusão de que 'é evidente que as subsidiárias das corporações internacionais que operam na região não realizam esforços significativos em matéria de investigação e desenvolvimento. De fato, a maioria carece de um departamento com tal finalidade, e em raríssimos casos procede a trabalhos de adaptação de tecnologia, enquanto outra minoria de empresas, situadas geralmente na Argentina, Brasil ou México, realiza modestas atividades de investigação'[6]. Raúl Prebisch adverte que 'as empresas norte-americanas na Europa instalam laboratórios e realizam investigações que contribuem para fortalecer a capacidade científica e técnica desses países, o que não ocorreu na América Latina' (...)"

p. 410 - "Em 1955 e 1966, no Brasil, a indústria mecânica, a de materiais elétricos, a de comunicações e a indústria automobilística elevaram sua produtividade em cerca de 30 por cento, mas no mesmo período os salários de seus operários cresceram, em valor real, apenas 6 por cento[8]."

p. 416 - Explicação de como o livre mercado vem favorecer as empresas de países mais desenvolvidos. E como os países (Inglaterra e Estados Unidos, principalmente) implementaram o bloqueio econômico para desenvolverem sua indústria e depois pregaram o livre comércio para vender suas mercadorias.

p. 417 - "Na América Latina, como em outras regiões, não imperam as incômodas leis antitrustes antitrustes dos Estados Unidos. Aqui os países se convertem, com impunidade plena, em pseudônimos das empresas estrangeiras que os dominam. O primeiro acordo de complementação na ALALC, em agosto de 1962, foi assinado pela Argentina, Brasil, Chile e Uruguai; na realidade, foi assinado entre a IBM, a IBM, a IBM e a IBM."

Sete anos depois

p. 437 - "Na ocasião do golpe de Estado contra Goulart, os Estados Unidos tinham no Brasil sua maior embaixada no mundo. Lincoln Gordon, o embaixador, treze anos depois reconheceu para um jornalista que, já tempos antes do golpe, seu governo vinha financiando as forças que se opunham às reformas: 'Que diabo', disse Gordon, 'isto era mais ou menos um hábito naquele período (...). A CIA estava acostumada a dispor de fundos políticos'[6]. Na mesma entrevista, Gordon explicou que, nos dias do golpe, o Pentágono enviou um porta-aviões e quatro navios-tanques às costas brasileiras para o caso das forças anti-Goulart necessitarem de ajuda”. Esta ajuda, esclareceu, 'não seria apenas moral. Nós daríamos apoio logístico, abastecimentos, munições e petróleo.'"

p. 439 - "Nos países democráticos não se revela o caráter de violência que tem a economia; nos países autoritários, ocorre o mesmo com o caráter econômico da violência”, escreveu Bertolt Brecht no seu diário de trabalho, em fins de 1940." "Quando a sombra da crise espreita, é preciso aumentar o saque aos países pobres para garantir o pleno emprego, as liberdades públicas e as altas taxas de desenvolvimento nos países ricos."

p. 441 - "Fontes insuspeitas confirmam que uma ínfima parte dos novos investimentos estrangeiros diretos na América Latina provém do país de origem. Segundo uma investigação publicada pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos[10], apenas 12 por cento dos fundos vêm da matriz estadunidense, 22 por cento correspondem a lucros obtidos na América Latina e os 66 por cento restantes derivam das fontes de crédito interno e, sobretudo, do crédito internacional. A proporção é semelhante para os investimentos de origem europeia ou japonesa; e é preciso ter em conta que frequentemente esses 12 por cento de investimento investimento que vêm das casas matrizes não são senão o resultado da transferência de maquinário já usado ou simplesmente refletem a cotação arbitrária que as empresas impõem ao seu know-how industrial, às patentes e às marcas. As corporações multinacionais não só usurpam o crédito interno dos países onde operam, em troca de um aporte de capital bastante discutível, mas também multiplicam suas dívida externa."

p. 444 - "Cada vez vende mais carne ao exterior o povo brasileiro, que raramente come carne."